• Empreendedorismo

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    Saul Neves de Jesus – Professor Catedrático de Psicologia da Universidade do Algarve
    Joana Vieira dos Santos – Assistente e Doutoranda em Psicologia das Organizações da Universidade do Algarve

    Na semana em que decorre em Portugal, e em mais de uma centena de países, a Semana Global do Empreendedorismo (15 a 21 de Novembro), eis que encontrámos o mote para a troca de algumas ideias e opiniões com todos aqueles que partilham a paixão pelo desafio.
    A popularidade que o constructo empreendedorismo apresenta conduz a que, por vezes, seja apelidado como um bálsamo que soluciona todos os problemas. Provavelmente, porque o fenómeno do empreendedorismo tem sido desprovido de um modelo conceptual integrador que o explique (Shane & Venkataraman, 2000). Contudo, a riqueza do seu conteúdo merece-nos algumas considerações.

    O termo empreendedor (entrepreneur) surgiu na França, por volta dos séculos XVII ou XVIII, com o objectivo de designar aquelas pessoas que estimulavam o progresso económico, através de novas e melhores formas de actuação. Também na língua inglesa, em 1725, o economista irlandês Richard Cantillon utilizou a expressão entrepreneur para caracterizar aquele tipo de indivíduos que assume riscos. Só no século XX, este conceito começou a ser utilizado com maior frequência. Por exemplo, em 1921, o norte-americano Frank Knight afirmou que aquilo que distingue o empreendedor é a sua capacidade de lidar com a incerteza. Actualmente, é um dos conceitos mais utilizados em Psicologia das Organizações. De acordo com Shane e Venkataraman (2000), a definição mais consensual encara o empreendedorismo como a tentativa de criar valor, através da descoberta e exploração de novas oportunidades de negócio, mesmo em situações de crise ou de incerteza.
    A situação actual em que, muitos espanhóis estão a deixar de vir a Portugal por, entre outros factores associados à crise económica, terem que pagar o facto de se deslocarem nas SCUT, revela-se um desafio para alguns hotéis do norte do país, pois estão a pagar o valor das SCUT aos clientes. Este é um bom exemplo de empreendedorismo, em que é aproveitada a crise e transformado um problema numa oportunidade de negócio, não só para manter os próprios clientes, mas para retirar clientes à concorrência.

    Embora sendo considerada por todos como uma atitude fundamental na actualidade, o campo de estudo do empreendedorismo revela alguma fragmentação tanto teórica, como prática. Têm emergido diversas perspectivas, colocando a tónica na pessoa (e.g. Psicologia), no processo e/ou na organização (e.g. Gestão) (Cunningham & Lischeron, 1991; Leiria, Palma, & Cunha, 2006). Contudo, mais do que a polarização em rivalidades estéreis, uma atitude empreendedora conjuga a motivação com a criatividade, pelo que o esforço e a inovação são componentes essenciais para o sucesso, em qualquer domínio de actividade nos nossos dias.
    Por exemplo, antes Mark Zuckerberg desenvolver, em 2004, num dormitório de Harvard, uma rede de partilha de perfis através da qual os estudantes da universidade podiam conhecer-se melhor, ninguém diria que esta rede social poderia chegar aos mais de meio milhão de utilizadores em todo o mundo, levando a que alguns considerem o “Facebook” como o “terceiro país” mais numeroso do planeta, a seguir à China e à India. Para este jovem, actualmente com apenas 26 anos, muitas empresas ficam presas às normas e às convenções, não promovendo a inovação.

    Actualmente, ninguém questionará que Mark Elliot Zuckerberg é um empreendedor norte-americano. No entanto, será que o seria, caso a sua área de estudos se centrasse nas ciências humanas e não na programação? Acreditamos, e defendemos, que o empreendedorismo é um tema actual, não apenas nas engenharias e tecnologias, ou na gestão, mas também nas ciências humanas e sociais. O empreendedorismo deve ser considerado um campo de estudo multidisciplinar, no entanto, cada disciplina apresenta uma visão própria da temática (Sexton & Landström, 2000).
    Numa era em que proliferam as referências ao Capital Intelectual das empresas, o foco está nas pessoas, ou seja, centra-se na dimensão humana. Este fenómeno é visível, nomeadamente, através da popularidade do termo activos humanos, em detrimento de funcionários.

    O mercado alberga constantes mudanças, socioculturais e tecnológicas, as quais fazem repensar hábitos e atitudes, pelo que a procura centra-se em profissionais com coragem para arriscar e para ultrapassar os seus próprios limites. O futuro é cheio de incertezas, por isso, é preciso potenciar as competências pessoais e profissionais, estimular a criatividade e melhorar as capacidades de comunicação. A diferenciação pode passar pela capacidade (ou habilidade) para incorporar outros princípios, mudar de paradigmas. Conquista-se a autonomia profissional quando se é perseverante, determinado, criativo, inovador e focalizado. Este é o perfil do profissional que, através da troca de informações e de conhecimentos, poderá fazer parte do cenário das organizações aprendentes, das organizações do futuro. Essas qualidades ajudam a vencer a competitividade dos tempos modernos.

    Segundo Leite (2000), nas qualidades pessoais de um empreendedor destacam-se: a iniciativa; a visão; a coragem; a determinação; a capacidade para tomar decisões; a atitude de respeito humano; e a capacidade de organização. Enquanto, para Lumpkin e Dess (1996) as cinco dimensões que constituem a orientação empreendedora são: a autonomia, a inovação, a propensão para o risco, a proactividade e a agressividade competitiva. Naturalmente, a condição da natureza humana não garante que todos tenhamos o mesmo traço ou perfil empreendedor, pelo que esta é uma atitude que pode e deve ser ensinada. A educação deve permitir: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a conviver; aprender a ser. Só assim os profissionais poderão enfrentar a globalização com responsabilidade, competência e autonomia.

    A maioria das pessoas, desde que estimulada, pode desenvolver habilidades empreendedoras. Seria conveniente o desenvolvimento desta atitude no ensino universitário, não só em relação ao futuro, na perspectiva da concretização de um projecto profissional, mas também em relação à concretização de um projecto vocacional no curso frequentado. É importante educar para o empreendedorismo, mas também é fundamental criar condições ou oportunidades para a concretização dessa atitude com sucesso; senão a frustração e a inibição serão maiores no futuro.

    A título ilustrativo, com o empreendedorismo pode acontecer aquilo que a investigação em Psicologia tem revelado em relação às expectativas de eficácia. É importante desenvolver estas expectativas nos sujeitos para acreditarem em si mesmos e na sua capacidade para concretizar os seus objectivos. Mas são fundamentais as realizações comportamentais, isto é, ser bem sucedido no alcance dos objectivos, pelo que, se porventura não consegue alcançá-los, o sujeito diminui de forma evidente as suas expectativas de sucesso em relação a situações futuras, podendo ficar inibido e preferir não arriscar. Da mesma forma, é fundamental ter sucesso na implementação da atitude empreendedora, ter uma perspectiva de instrumentalidade, uma adequada relação entre objectivos-fim e objectivos-meio, sabendo, por exemplo, como criar e montar uma empresa ou um negócio. Nesse sentido, no nosso país foram criadas muitas empresas na última década, com uma maior facilitação no processo de criação de empresas e do acesso ao crédito bancário. No entanto, a conjectura actual de crise, com inúmeras falências e insucesso por parte de jovens com habilitações e conhecimentos e com uma atitude empreendedora, pode levar à perda de confiança por parte de toda uma geração, ficando inibida a atitude empreendedora que foi treinada e incentivada. Este é um bom exemplo de como a dimensão psicológica e a dimensão económica interagem e se inter-influenciam. Não obstante o empreendedorismo traduzir a percepção de um período difícil como uma oportunidade e um desafio, será que a nova geração de jovens empreendedores se sente motivada e confiante para arriscar no presente e num futuro próximo? Será que vai ser necessário esperar por uma nova geração também treinada para ser empreendedora, mas sem o estigma de insucessos anteriores, para que essa atitude empreendedora se manifeste no investimento e na recuperação económica?
    Na verdade, se o empreendedorismo é “a arte de fazer acontecer, com motivação e criatividade” (Menezes, 2007, 72), então a mudança pode e deve começar a partir de cada um de nós, porque cada um de nós, independente do contexto, tem a capacidade para inovar!

    Referências
    Cunningham, B., & Lischeron, J. (1991). Defining Entrepreneurship. Journal of Small Business Management, 29, 1, 45-61.
    Leite, E. (2000). O fenómeno do empreendedorismo: criando riquezas. Recife: Edições Bagaço.
    Leiria, A. C.; Palma, P. J., & Cunha, M. P. (2006). O Contrato psicológico em organizações empreendedoras: Perspectivas do empreendedor e da equipa. Comportamento Organizacional e Gestão, 12, 1, 67-94.
    Lumpkin, G. T. & Dess, G. (1996). Clarifying the entrepreneurial oriental construct and linking it to performance. Academy of Management Review, 21, 1 135-172.
    Menezes, R. (2007). Empreendedorismo é a arte de fazer acontecer com motivação e qualidade. Locus Científico, I, IV, 72-78.
    Sexton, D., & Landstrom, H. (2000). The Blackwell Handbook of Entrepreneurship. Maldon, MA. Blackwell Publishing
    Shane, S., & Venkataraman, S. (2000). The promise of entrepreneurship as a field of research. Academy of Management Review, 25, 1, 217-226.

    15 de Novembro de 2010